SELEÇÃO DE PROCTO - DR FÁBIO SOARES.

6/2/2018

Uma das entrevistas mais legais e esclarecedoras!

Conheci o trabalho do Dr Fábio inicialmente por causa do EPSiT (é repetitivo mas sou muito fã do método) e depois alguns membros voltavam das consultas dizendo que além de ser um ótimo médico, era muito gente boa. Quando pensei em criar o projeto com o objetivo de compartilhar conhecimento, não hesitei em entrar em contato  e para minha supresa ele já conhecia o CPGS e topou na hora! Dr Fábio obrigada por essa oportunidade de conhecimento! Uma honra de verdade!

 

1) Nem todo "cisto" contém pêlos, na sua opinião qual a causa mais aceita para a origem da Doença Pilonidal atualmente?

 

R: Hoje podemos dizer que há um consenso na literatura médica sobre 
a fisiopatogenia do cisto pilonidal, ou seja: sobre a forma como se 
origina esta doença. A questão de o cirurgião não perceber pelos 
macroscopicamente (ou seja, visíveis a olho nu) e de a doença ocorrer em 
pessoas que possuem poucos pelos na região sacro-coccígea, não significa 
a ausência de pelos em alguns casos. Os estudos de Karidakis publicados 
no início da década de 90 (e resultados de mais de 30 anos de uma vida 
acadêmica dedicada ao estudo do cisto pilonidal) demonstrou não só a 
importância dos pelos mas também da profundidade do sulco interglúteo e 
da resistência da própria pele da região ao processo de inversão pilosa, 
ou seja, de entrada de pelos no espaço subdérmico e sua encapsulação, 
que no fim das contas, forma o cisto. A demonstração de cistos 
pilonidais de forma atípica, como em região umbilical ou mesmo nas mãos 
de cabeleireiros fornecem também evidências empíricas da importância dos 
pelos para a formação do cisto pilonidal.
 

 2)Vemos constantemente casos de múltiplas cirurgias, quais seriam os principais fatores para uma recidiva?

 

R: É importante aqui recordarmos os diversos espectros de gravidade 
da doença pilonidal, que se apresenta e evolui de formas bem distintas 
(e mais ou menos graves) entre diversos indivíduos afetados. Por 
exemplo: não é incomum que a doença permaneça em sua forma subclínica - 
ou seja, sem jamais ser sequer percebida pelo paciente - por toda uma 
vida. Nós que fazemos consultório de coloproctologia percebemos com 
frequência sinais de cistos pilonidais, com aqueles pequenos orifícios 
em linha média e mesmo cistos palpáveis abaixo da pele, quando vamos 
fazer o exame proctológico em pacientes com outras queixas, como 
pacientes com hemorróidas, por exemplo. Às vezes perguntamos sobre 
sintomas do cisto e os pacientes demonstram jamais terem sentido 
incômodo e sequer terem percebido que tinham um cisto pilonidal. São 
formas muito brandas da doença.Por outro lado, há pacientes com formas mais agressivas e  recidivantes, que tendem a formar cistos mais extensos, com múltiplos 
trajetos fistulosos, delimitando uma extensa área a ser abordada num 
procedimento cirúrgico. São pacientes que tendem a recidivar mais e a 
necessitar de excisões (ou seja, remoções) mais amplas de tecido e 
reconstrução da área afetada com retalhos cutâneos, por exemplo.
Entre esses dois espectros opostos encontra-se a forma mais 
frequente de apresentação da doença pilonidal: pacientes que têm um 
cisto bom delimitado, com um orifício fistuloso associado. Em geral, 
esses quadros seguem um episódio agudo de infecção (abscesso 
sacro-coccígeo) que foi drenado cirúrgica ou espontaneamente. Portanto, a taxa de recidiva depende da gravidade da apresentação inicial e da complexidade da abordagem cirúrgica em questão. Fatores como persistência de pelos na região, trajetos 
fistulosos ou mesmo cavidades que não tenham sido identificados e 
abordados são também fundamentais para haver ou não uma recidiva. Por 
fim, os cuidados pós-operatórios durante o período de cicatrização e 
após, como os curativos realizados meticulosamente e a depilação, são 
fundamentais para prevenir recidivas relacionadas ao processo da 
operação e sua recuperação.Por fim, está demonstrado que as recidivas tardias (na verdade, a formação de novos cistos) pode ser evitada pelas técnicas de depilação 
definitiva da região, superior ao uso de lâminas e cera, por exemplo.

3)Acima dos 40 anos é possível uma regressão da doença?

 

R: Sabe-se que o pico de incidência da doença pilonidal ocorre 
entre a adolescência e a quarta década de vida (dos 30 aos 40 anos).
 Por esta razão, vários fatores foram postulados como determinantes ou coadjuvantes na apresentação do cisto pilonidal, como estimulação hormonal, sem que haja evidências claras de sua importância.Está bem determinado que a incidência de cisto pilonidal cai 
de modo expressivo após os 40 anos, havendo no entanto raros relatos 
sobre casos ocorridos até mesmo em idosos. Mas não devemos confundir a 
queda na incidência (ou seja, no surgimento de novos casos) após os 40 
anos com regressão da doença pilonidal. Pacientes que têm cistos 
pilonidais na juventude, se não tratados, seguirão com seus cistos após 
os 40 anos.

4)Se a linha média é de difícil cicatrização porque o método
aberto ainda é indicado no geral como a principal técnica no Brasil?


R: Em cirurgia, dizemos que "quando há várias técnicas 
cirúrgicas disponíveis para tratar uma mesma doença, é porque nenhuma é 
suficientemente boa para todos os casos". Há técnicas que têm elevada 
eficácia para tratar a doença, mas que envolvem uma recuperação penosa e 
cuidados difíceis e, por vezes, dispendiosos (e aí incluímos custos 
indiretos, por ser uma doença que acomete indivíduos jovens, em fase 
produtiva, e que pode afastá-los de suas atividades laborais por longos 
intervalos. Há aí um custo global associado bastante elevado - muito 
além dos custos médico-hospitalares do tratamento).
E há técnicas minimamente invasivas cujos resultados são 
promissores mas ainda iniciais, como o EPSiT. São técnicas que envolvem 
uma recuperação muito mais rápida, retorno precoce ao trabalho e, apesar 
de custos médico-hospitalares mais elevados, em muitos casos, pelo 
retorno precoce ao trabalho e às atividades do paciente, custos globais 
menores. No entanto, apesar das séries de casos disponíveis e dos 
resultados promissores de quem se dedica a esta técnica, ainda não há 
evidências robustas de sua superioridade no tratamento da doença 
pilonidal por não haver estudos prospectivos, controlados e casualizados 
(ensaios clínicos) que demonstrem uma maior efetividade desta abordagem 
sobre as técnicas abertas, estas sim muito bem estudadas e consolidadas 
de um ponto de vista acadêmico, por serem técnicas antigas.
É importante frisar que, em medicina, leva-se muito tempo 
para que uma boa técnica se consolide e seja universalmente aceita. É 
necessário que resultados sejam não apenas conhecidos num longo prazo, 
mas que as novas técnicas e seus resultados sejam consistentemente 
reprodutíveis.
 
5)O EPSiT é indicado para todos os casos de cisto pilonidal?

 

R: Conforme dito anteriormente, quando há várias técnicas 
disponíveis para tratar uma mesma doença, é porque nenhuma delas é 
suficientemente boa para tratar todos os casos. Portanto, devemos 
adaptar as técnicas disponíveis às necessidades dos pacientes e não 
adaptar os pacientes às preferências técnicas do cirurgião. Portanto, o 
fundamental é que o cirurgião possua um repertório de técnicas 
cirúrgicas que atendam às necessidades e peculiaridades de cada caso e, 
a partir de uma boa avaliação pré-operatória, possa planejar a cirurgia 
de acordo com cada caso.Dito isso, devo dizer que sou um grande fã do EPSiT como 
técnica pois entendo que é uma forma de abordagem que veio para 
revolucionar o pós-operatório da doença pilonidal. De um modo geral, 
minha preferência é por utilizar a abordagem videoassistida sempre que 
possível, e ela é particularmente útil na forma mais comum de 
apresentação da doença, com cistos únicos e fistulizados.
Cistos muito pequenos têm sua abordagem pelo EPSiT dificultada 
por não haver espaço de trabalho suficiente para a ótica e o 
instrumental utilizado. Já os cistos recidivados, extensos e muito 
complexos, ainda não parecem ser os candidatos ideais para as técnicas 
videoassistidas. Mesmo assim, nestes casos, temos utilizado o EPSiT como 
uma ferramenta diagnóstica, que nos permite avaliar melhor a extensão, 
complexidade e trajetos associados do cisto.

 

Debbie Signé

#cistopilonidal #cistopilonidalgrupoesuporte 

 

 

 

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